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Há artistas que estudam a vida inteira para aprender a pintar. Outros simplesmente nascem sabendo conversar com a alma das cores. Quim pertence a essa segunda espécie rara — aquelas que parecem ter recebido o ofício antes mesmo de compreender o mundo.
Entrei na exposição do Quim ontem, pela manhã. Dessas que começam sem promessas. Mas há momentos em que algo invisível decide nos surpreender. Foi assim. Diante daquelas telas pequenas, despretensiosas, senti algo difícil de explicar: uma paz, uma quietude interior, quase uma oração silenciosa feita de cores.
Não eram apenas pinturas. Eram pedaços de vida.
Quim pinta como quem respira. Sem teoria, sem escola, sem manual. Pinta como quem colhe lembranças no quintal da infância. Há nas suas cores algo de menino e algo de eternidade.
Sua história começa longe das galerias e dos vernissages. Nasce pobre no interior do Vale do Rio Doce, em Minas Gerais — desses lugares onde a infância muitas vezes não tem tempo de brincar. Enquanto outros meninos corriam atrás de bola, Quim corria atrás do sustento. Capinava a terra, ajudava o pai, quebrava pedra com marreta pequena na pedreira de São João Evangelista.
A vida lhe negou os livros. Nunca aprendeu a ler. Assina apenas o próprio nome — gesto simples que, para ele, já é uma conquista. Mas a vida, quando fecha uma porta, às vezes abre uma janela para o infinito.
Quim não leu os mestres da pintura. Não conhece tratados estéticos nem manifestos artísticos. Ainda assim, suas telas passeiam com uma liberdade desconcertante entre o naïf, o abstrato, o surreal e até algo do concreto — como se ele atravessasse séculos de história da arte guiado apenas pela intuição.
E talvez seja justamente isso que emociona.
Porque enquanto muitos artistas procuram uma linguagem, Quim simplesmente fala.
Em 2017, um colecionador de arte entrou em sua casa simples e encontrou três pequenas telas de 15 por 15 centímetros penduradas numa parede humilde. Mas havia ali algo maior do que qualquer medida: havia verdade.
Às vezes penso que certos encontros já estavam escritos em algum lugar do universo.
Foi o caso daquele.
Quim, que foi servente, pedreiro, carroceiro e pintor de paredes, descobriu que as cores que espalhava nas casas também habitavam dentro dele. E quando começaram a sair, saíram como quem encontra finalmente o caminho de volta para casa.
Certa vez ele disse, com a simplicidade que só os grandes possuem:
“Eu não pinto pra mim. Eu pinto para os outros acharem bonito.”
Essa frase, aparentemente ingênua, carrega uma delicadeza rara. Porque talvez seja isso mesmo que a arte deveria ser: um gesto generoso oferecido ao olhar do outro.
Ao sair da exposição, tive a sensação de ter presenciado algo que ultrapassa o talento. Algo metafísico. Algo que toca o mistério.
Quim não estudou arte.
Mas a arte, ao que parece, estudou cuidadosamente o coração dele antes de escolhê-lo.
E quando isso acontece, não há crítica, teoria ou academia que explique. Mesmo porque “a arte existe porque a vida não basta”
Só resta sentir.
E agradecer.
Emocionante narrativa. Lindo
Sandra
Que beleza de texto, emocionante!
Tocou a minha alma.😢😢
Guima
A pintura, assim como a música, tem que ter sentimento. ❤️❤️❤️
Calú
Cadu, me preservo o direito de não justificar o meu conceito e gosto sobre esse tipo de arte. Simplesmente : não gosto! O fato de ter vindo de uma origem humilde não justifica a infantilidade das obras. Teve sorte, eu acho. Encontrou com um colecionador que se dava o direito de achar aquela obra linda. Todo mundo foi atrás….A velha história da “roupa nova do rei”. Lugar certo! Hora certa e pronto! Acho que foi assim com ele e muitos outros. Grande abraço! Ian Duarte
Belíssima crônica, Cadu!!!
Parabéns!!! 💚🤍❤️
Benjamin
C A D U ,
Vc tem o poder de qualificar tudo que toca .
Parabéns a vc e boa sorte ao Quim
Sebastião Nelson
Olá,Cadu!
Que maravilha de texto!❤️
Abraço.
Bernadete Blom
Que linda história!!!! Parabéns Cadu👏👏👏👏👏👏👏👏👏👏👏👏👏👏👏👏👏👏🙏
Sônia Saadi
Que maravilha!!! Você com seu texto consegui passar a verdadeira essência da arte. Parabéns!!
Cicera
Que crônica maravilhosa CADU, muito obrigada pelo presente.!!!
Luís Alberto Leite
Que beleza de texto! Que arte a sua em escrever, doutor!
Atágide Assunção
Boa tarde ! Muito bom ! Parabéns!!!
Lincoln Lopes Ferreira
Olá,amigão.
Como a vida nos surpreende à todos os momentos.
Basta estarmos alertas.
Disseste muito bem !
O metafísico está aí .
Nos resta sentir.
🙌👍👏🙏
Alex Wagner
Nasce um crítico de arte em bh sem saber que é. sempre com lindas palavras Parabéns!! Leão
Wadson
Ver , sentir e engrandecer a alma. Muito bom .
Adissi
As vezes você se suplanta.
Parabéns
LFAR
Beleza de crítica/crònica 👏👏 Sugestão: acrescente o serviço no final – galeria, endereço, horário de visitação etc 👏👏
Marco Lacerda
Olá Marco, tudo bem?
Sintetizando a resposta, envie um direct a @papazoglugaleria
Muito bem colocadas suas emoções ao conhecer a arte do Quim, Cadú.
Também sou encantado pelo seu trabalho, e já consegui adquirir duas telas, maravilhosas!
Com este belo texto você contribui para que muitos outros possam conhecer a arte do Quim.
Parabéns
Flavio Ramos
Só um verdadeiro artista das palavras poderiam descrever esse outro artista da pintura com tanta precisão, generosidade, beleza, delicadeza e verdade!!!! Chorei com os dois artistas , o cronista e o pintor!!!!! Porque o verdadeiro artista é aquele que passa emoção para o coração do outro!!! Vocês dois me emocionaram profundamente!!!! Viva a arte!!!!! Viva o amor!!
Silvana Leão
Poderia descrever( corrigindo)
Magnífica, Leão!
Me tocou fundo!
José Geraldo
Cadu. o conheço o Qyuim nem seus quadros. Mas após seu texto, o sinto muito bem e serenamente. Obrigado. Daher
Simplicidade feita com o coração 👏👏
Menegazzo
Bom dia Carlos.
Parabéns pela belíssima crônica.
Abraços.
Fellet
Que beleza , meu amigo!
José Horácio
Fala aí cadu.
Puts grila viu.
Vc foi mais que demais em seu fabuloso comentário viu amigo.
Autêntico,
Abraço
Carlos Roberto
Cadu, vc captou o talento que Deus concedeu ao Quim através da arte com tremenda sensibilidade! Parabéns pelo belíssimo texto!
Ana Cristina.
Enxergando a beleza da simplicidade…
Parabéns!
Cris Linhares
Parabéns, mestre Cadu, que com sensibilidade e competência, disseca e nos traz o surgimento de um gênio. Abraço do
Manoel Otávio.
Cadu
Detetive das artes
QUIM
Maravilhosa Intuição
Parabéns
Abdisio Lemos
Simplicidade toca a alma mais rápido!
Ze Octavio
Beleza de crônica!
Teresa Resende
Bom dia, caro amigo e Confrade Cadu. Ninguém melhor que você, expert em pintura, para tecer comentários sobre a obra de Quím. Parabéns pela crônica. Abraços.
Hélio Arêas
:-)mto importante saber e faz bem a alma tb
Meu amigo Leão, quanta propriedade e sensibilidade no seu texto. Simplesmente magnânimo. Você conseguiu enxergar, com os olhos da alma, aquilo que o Quim transpõe em sua arte.
Farei questão de compartilhar com os meus e que estes façam o mesmo com os seus. Afinal, tudo aquilo que é divino merece ser iluminado. ✨