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Talvez o maior legado da Covid-19 não tenha sido um vírus.
Talvez tenha sido um espelho.
Nele vimos máscaras, lockdowns, distanciamento, ruas vazias, empresas fechando as portas, famílias separadas, profissionais sendo silenciados, amigos deixando de se falar. Vimos medo. Muito medo.
Agora surgem novas páginas dessa história. O episódio Fauci, os documentos que começam a aparecer, os diários que despertam tantas perguntas. Não sei onde essa estrada termina. E prefiro esperar que a história faça o seu trabalho antes de qualquer sentença definitiva.
Mas uma conclusão já me parece possível.
Nenhuma sociedade deveria permitir que o medo ocupasse o lugar do pensamento.
A Medicina nasceu para fazer perguntas antes de oferecer respostas. Seus conceitos pétreos não podem mudar ao sabor dos ventos políticos, econômicos ou ideológicos. Porque, quando isso acontece, quem perde nunca é uma corrente de opinião.
É o paciente.
Se um dia ficar demonstrado que erramos mais do que imaginávamos, que essa descoberta não sirva para alimentar vinganças. Sirva para produzir discernimento.
Que a próxima pandemia — se vier — encontre uma humanidade mais preparada para desconfiar das certezas absolutas, mais cuidadosa com as narrativas prontas e mais comprometida com a ciência verdadeira, aquela que não teme o debate, nem a dúvida, nem a revisão das próprias conclusões, já que a nossa Medicina é a ciência das eternas verdades transitórias dada a sua extraordinária evolução.
Se existe uma vacina que vale para todas as épocas, ela talvez seja esta:
a coragem de pensar por conta própria.
Porque vírus passam.
Mas a liberdade de pensar, quando perdida, pode demorar muito mais para voltar.
Tomara que tudo isso tenha sido apenas uma tragédia. Porque, se um dia descobrirmos que também foi uma lição, que ao menos tenhamos aprendido alguma coisa.
A Covid19 talvez tenha deixado duas sequelas. Uma no corpo. Outra na nossa relação com a verdade. Da primeira a Medicina cuida. Da segunda, só o discernimento