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Eu tenho uma percepção muito pessoal sobre o Dia de Finados. Uma data que, culturalmente, é revestida de tristeza, mas que, para mim, é muito mais um dia de alegria.
Essa tradição tem mais de mil anos. Foi instituída por Odilo de Cluny, um abade francês, que entendeu a importância de homenagear aqueles que partiram. Rezar por eles, acender velas, interceder e pedir por eles, visitar cemitérios, levar flores… ritos que atravessam gerações e culturas.
Mas nem todos compartilham dessa mesma visão.
Para os evangélicos, por exemplo, o destino espiritual de cada pessoa é definido em vida. Não há purgatório, segunda chance, reencarnação ou intercessão que possa modificar a condição de quem partiu. A fé protestante se apoia na palavra de Timóteo: “O único mediador entre Deus e os homens é Jesus Cristo.
São diferentes formas de compreender a morte e a eternidade. E acredito que o respeito a essas diferenças também seja uma forma de amor.
Mas existe algo que me faz pensar.
Talvez por estar na faixa dos 60+, eu tenha uma percepção diferente sobre a morte e o morrer.
O dia 2 de novembro não é o dia em que me lembro daqueles que marcaram minha vida. Porque estes estão diuturnamente no meu coração e na minha mente. Talvez seja o dia para “oficialmente” homenagea-los.
Como, por exemplo, meu pai, meu maior amigo. Meus avós, tios, primos, amigos, colegas, professores… tantas pessoas que passaram pela minha vida e que hoje não posso mais rever neste plano.
Mas delas ficaram os ensinamentos, os momentos inesquecíveis e, principalmente, a saudade.
E a saudade tem uma extraordinária capacidade de transformar ausência em presença e torná-los imortais.
Passei pela infância, pela adolescência, pela juventude, pela maturidade… até chegar ao marechalato da vida: a idade em que carregamos a experiência de uma vida inteira.
Em todas essas fases, vivemos perdas, tristezas, alegrias. Porque tudo isso faz parte do amor. E o amor, como sabemos, tudo pode, tudo suporta, tudo compreende.
Por isso, minha posição sobre o Dia de Finados talvez seja um tanto controversa.
Eu não vejo esse dia como uma celebração da morte.
Vejo como uma celebração da vida.
Porque, embora estejamos vivos, um dia não mais estaremos.
E quando isso acontecer, se tivermos deixado amor, ensinamentos, boas lembranças e saudade…
Teremos partido deste mundo.
Mas jamais da vida daqueles que nos amam.