CRUZEIRO AL MARE – UM NAVIO, DOIS MUNDOS

Cruzeiro: Todos a bordo, mas nem todos no mesmo mundo.

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“TITANIC” (1997), que conquistou 11 Oscars, não ficou famoso apenas pelo romance trágico ou pelo naufrágio histórico. Antes do desastre, o filme já apresentava um retrato claro: um navio com dez andares, três classes sociais e mundos que raramente se tocavam.

Todos a bordo, mas nem todos no mesmo sonho. Desde então, o cruzeiro marítimo se consolidou como uma metáfora flutuante da desigualdade — elegante, organizada e perfeitamente normatizada.

 

Nada muito diferente dos cruzeiros atuais, inclusive os que percorrem a costa brasileira, levando, no mínimo, 4 mil navegantes . O que muda, talvez, não seja o cenário, mas o personagem central: o brasileiro. Um ser que ainda desafia manuais, estatísticas e qualquer tentativa honesta de generalização. Um povo intenso, criativo, barulhento, afetivo, contraditório e absolutamente fascinante.

 

O cruzeiro começa vendendo descanso, luxo e contemplação. Na prática, transforma-se num experimento social que faria Darwin pedir um colete salva-vidas. O cenário é imutável: céu e mar. Só isso. Dias. Sem cortes, sem “plot twist”. Um looping azul que no primeiro dia acalma, no segundo entedia e, no terceiro, faz você conversar com as nuvens e dar nome às ondas.

 

O enjoo é personagem recorrente. Chega sem convite, instala-se e lembra que o corpo humano não foi projetado para morar num prédio de quinze andares que balança. Há quem lute com remédios, quem confie em pulseiras místicas e quem aceite o destino, abraçando o vaso sanitário como um velho confidente.

 

Habitual em qualquer cruzeiro mundo afora, nas áreas comuns, o espetáculo atinge níveis operísticos. – Educação, cadê você? Conseguir uma espreguiçadeira nas piscinas exige tática militar. As hidromassagens são ocupadas por famílias inteiras que parecem ter esquecido que o navio não lhes pertence. 

A fauna humana se revela em toda sua glória estética: regatas com frases motivacionais duvidosas, bermudas estampadas com frutas tropicais em estado de delírio, chinelos Rider batendo no chão como castanholas do caos. 

As conversas são altas, os gestos amplos, o entusiasmo constante. Crianças circulam livres, testando limites acústicos madrugada adentro, enquanto pais observam com o olhar cansado de quem decidiu negociar a educação com o oceano.

 

O sistema “all inclusive” libera um instinto ancestral: o medo de que a comida acabe. Pratos montados como obras de engenharia civil — camarão, feijoada, sushi e batata frita coexistindo pacificamente num atentado à biologia e à dignidade culinária. A lógica é simples: se não comer até passar mal, você perdeu dinheiro.

 

As cabines mais simples lembram que ali não se está hospedado, mas armazenado. São tão pequenas que  exigem planejamento respiratório: um pulmão se expande, o outro espera. Abrir a mala é um ato de coragem. Dar dois passos seguidos, um privilégio. 

 

À noite, os shows tentam recriar Las Vegas com orçamento de quermesse. Luzes em excesso, cantores emocionados demais e casais recém-saídos da aula de dança exibindo giros ousados e uma autoconfiança comovente.

 

Mas, o importante é estar feliz. E a absoluta maioria está!

 

Nos andares superiores, a experiência muda. Outro mundo. Outro navio. O ritmo desacelera. As taças corretas, o sussurro elegante, o desprezo educado. A ostentação é mais refinada e mais sutil: marcas discretas, nomes importantes, selfies comportadas.

Não é melhor nem pior. É outro recorte da mesma estrutura – dois mundos navegando juntos, separados por alguns andares, um elevador e a ilusão persistente de que todos vivem a mesma experiência.

 

E é nesse contraste que tudo se revela: em um lado do navio, no terceiro dia, você já pensa em pular e nadar até a costa; no outro, já cogita comprar uma suíte para morar ali o resto da vida.

No meu caso, em qualquer dos dois lados que estivesse, eu pularia. Três dias – nem mais um minuto!

 

Concluo afirmando que um cruzeiro não é simplesmente lazer. É um interessantíssimo exercício de observação sociológica.

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  1. Kkkkkk adorei! Que humor refinado !
    Análise sociológica !
    Quando os filhos eram pequenos, tivemos algumas experiências destas, tanto aqui, quanto lá.
    Ficaram lá atrás !
    Waldir Simões

  2. Ola Cadu. Muito bom. Falou tudo. Eu, so de falar em Cruzeiro Maritimo ja fico enjoado. Prefiriria que fosse um Atletico Maritmo. Assim mesmo, nao iria. Com desculpas aos cruzeirenses. Luiz de Gonzaga( Bide).Abraços

  3. Oie Cadu. Eu, so de falar em Cruzeiro Maritimo ja fico enjoado. Prefiriria falar em fazer um Atletico Maritimo. Assim mesmo, nao iria. . Perdao aos cruzeirenses.

  4. Grande Cadú.

    Nada como ler a sua crônica e entender como eu ,depois de alguns cruzeiros,gostaria de manifestar o meu pensamento,que é EXATAMENTE como me senti depois do último .
    Nem se me pagarem MUITO .
    Formidável .
    👏👏👏👏👏👏👏
    Alex Wagner

  5. Ola Cadu:
    Primeiro dia do navio e igual ao primeiro dia no Resort, já devidamente espinafrado neste espaco. Comida e bebida como se não houvesse amanha.E ai la er vao 3 dias de vomito e diarreia.Enfim, a visao do mar e encantadora. Mas prefiro ver da janela da Dante Michellini com o mar aberto….Não e Marlene?
    Abc
    Julio Pinheiro

  6. Excelente Leão, me relembrei em um destes cruzeiros. Meu primeiro e unico foi um “Carnavio” na época de solteiro ( daí vc imagina as pérolas que faltaram na sua Crônica). Grande abraço
    Leandro Pereira

  7. Meu querido amigo,
    Ler a sua crônica “Cruzeiro al Mare” é como embarcar imediatamente no navio.
    A ambientação é tão precisa que quase senti o balanço do mar e ouvi o burburinho dos passageiros, gritaria mesmo quando se trata de brasileiros.
    Parabéns, mais uma vez, pela forma magistral como você constrói os cenários (vivos, reais e deliciosamente reconhecíveis).
    Forte abraço
    Fernando Basto

  8. Cadu meu amigo , você é fenomenal !!
    *Conversar com as nuvens e dar nome às ondas
    * Pratos montados como obras de engenharia civil
    * Recriar Las Vegas com orçamento de quermesse

    Espetacular seu blog 👏👏

    Abraço

    Menegazzo

  9. Cadu, mais uma vez tive um instante precioso, leve e engraçado (num tempo em que a graça anda escassa), lendo seu texto! Não podia ser mais verdadeiro. Como dito num comentário abaixo, na mesma classe dos all inclusive – de rodízios a resorts… só vale mesmo se for para não ser “o chato” da família. Tres dias é um limite bom (fiz um de sete dias e tiquei). Vale a máxima do hóspede: é igual peixe na geladeira – depois de tres dias começa a cheirar mal… bom domingo!😂

  10. Bom dia!
    Gostei muito desse parágrafo:

    “O sistema “all inclusive” libera um instinto ancestral: o medo de que a comida acabe. Pratos montados como obras de engenharia civil — camarão, feijoada, sushi e batata frita coexistindo pacificamente num atentado à biologia e à dignidade culinária. A lógica é simples: se não comer até passar mal, você perdeu dinheiro”.

    Essa tb é minha percepção sob rodízios, all you can eat e o sistema all inclusive
    Lincoln Graça Neto

  11. É meu amigo! Para mim uma simples ida a um shopping já é coisa bem parecida… A última vez que fui foi bem antes da pandemia…
    Dan Mendonça

  12. Parabéns, grande amigo e querido colega Leão, texto maravilhoso e bem escrito por um expert e uma leitura vivida por quem conhece a rotina de um cruzeiro experimentado por quem já participou de vários pelo mundo afora. Forte abraço!

  13. Melhor que sua crônica sobre esse capítulo só se ressuscitassem o personagem Caco Antibes do ‘Sai de Baixo’. Porém, pela leitura do modus operante da classe média estaria sendo processado a cada capítulo. Imagina ver os esfomeados de cabresto no rosto fixado no bandeijao à frente : ruano eminente de atropelamento a cada minuto. E os bem ditados obesos em ação 👀🥲⚓️Cresceram não só em peso , como também no modus operante da deselegância : de camisa de futebol segurando a banha , maos com chopões em uma delas , orato montanhoso de porcarias , falando alto . Coisa de louco!!!!

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