BREVE ENSAIO SOBRE SOBREVIVER AO RÉVEILLON

Há algo de comovente — e profundamente cafona — na maneira como celebramos a virada

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Ah, o Réveillon!!

Primeiro telefonema ontem:

— Cadu, que tal juntarmos as comidas e comemorarmos juntos? Fale com a Thaïs. Vê se anima! Eu levo o salpicão e a malzbier!

Segundo telefonema, minutos depois:

— Oi, Cadu. Pensamos em você e na Thaïs. Pega um avião amanhã. Dia 31 é sempre mais barato. Guarapari tá cheio, mas o Réveillon aqui é sensacional. Temos uma suíte esperando vocês. O ar tá quebrado, mas o ventilador de teto é novo!

Não atendi mais nenhum telefone. Coloquei no silencioso e desativei até o vibrar. Mais um convite desses e uma internação psiquiátrica por transtorno afetivo sazonal ou um surto psicótico momentâneo deixariam de ser mera hipótese acadêmica.

Comecemos pelos destinos marítimos, essa obsessão nacional. Praias superlotadas, capazes de fazer o Piscinão de Ramos parecer retiro espiritual tibetano.

A densidade populacional é tamanha que a quantidade de galinha assada com farofa — alimento oficial do elegante veranista brasileiro — passa a ser medida por metro quadrado.

As cidades litorâneas, planejadas para abrigar 20 ou 30 mil felizes nativos, subitamente recebem uma invasão digna de cruzadas medievais: gladiadores modernos lutando por 30 centímetros de areia e um metro quadrado de água morna e turva.

As filas nas padarias e supermercados desafiam a Muralha da China em extensão. Aeroportos se tornam experiências místicas de desapego material. Rodoviárias ficam mais cheias que Maracanã em final de Fla-Flu valendo Libertadores.  – Alexa, solta o tsunami!

E então vêm as vestimentas. Um espetáculo à parte. Camisetas regata em tons indefinidos, sandálias Havaianas em baixa, Ipanema e USAbrasileiras em franca alta.

Mulheres espremidas em roupas brancas tão justas que parecem lutar contra a física newtoniana, com gorduras escapando como manifestações espontâneas da natureza.

Homens vestindo o clássico “réveillon casual”: bermuda, chinelo e a convicção de que estão elegantes.

Nas praias, Paris vira cenário pós-apocalíptico. Restos de oferendas espalhados como se Iemanjá, diante de tanta sujeira, preferisse educadamente pedir para não ser homenageada naquele ano. Flores murchas, garrafas, pratos descartáveis e promessas recicladas.

Há também as missas de fim de ano. Aquele momento constrangedor dos cumprimentos coletivos, quando você abraça pessoas cujo nome desconhece há décadas. Sempre existe o fiel entusiasmado que, insatisfeito em cumprimentar apenas o vizinho, resolve abraçar a igreja inteira, como se estivesse em campanha eleitoral ou em surto de afeto comunitário.

E como esquecer das mensagens de WhatsApp? “Feliz 2026! Clique aqui, pensei em você.” Você clica, claro, movido pela curiosidade antropológica, e recebe um vídeo mais longo que E o Vento Levou, com música emotiva, fogos em baixa resolução e frases que misturam autoajuda, astrologia e ameaça passivo-agressiva de prosperidade obrigatória.

À meia-noite, a tradição dos abraços: uma coreografia social ultrapassada, forçada, pegajosa, em que você abraça gente que passou o ano inteiro evitando. Tudo em nome da paz universal que dura, em média, até o dia 2 de janeiro.

Por isso, a verdadeira revolução contemporânea chama-se ficar em casa. Com a família, um bom filme, uma ceia honesta, o show da virada em qualquer emissora — menos aquela — e, às 00h01, todos na cama. Sem areia, sem fila, sem salpicão coletivo. O verdadeiro luxo do nosso tempo.

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  1. Ô coisa boa de ler isso 😊
    Fico feliz demais, de verdade. Às vezes a gente sente, pensa bonito, só falta alguém pôr no papel, e quando encontra, dá esse trem de sintonia.

    Obrigado pelo carinho e pela leitura das crônicas. Seguimos simples, do jeito que dá, mas com verdade.
    Alexandre Miranda

  2. Cadú, Feliz Ano Novo! – isso pode? É um chavão, mas, esse pode? Sei lá. Vai que funcione…Eu e a Edite, morando aqui, em sua terra, fizemos o que preconizou, sem ter lido seu texto. Em casa, degustando um bom vinho, desfrutando de uma ceia domiciliar e uma agradável conversa a dois, rememorando graças e desgraças. Depois um rapido passeio pela praia – que é logo alí -assistindo aos fogos e a pequena multidão que esse ano ajuntou-se aqui, desfilando tudo o que voce acaba de descrever tão bem! Beijos para a Thais e filhas! PS – A Di me lembrou: “e neta!”.

  3. Calma Cadu! Você tem liderado grandes movimentos literários em seus posts! Continue assim em 2026! Feliz Ano Novo, o que quer que isso signifique no nível cósmico

  4. Falou e disse, apenas as verdades nuas e cruas, kkkkk.
    Uma bela ceia ao redor da família e junto a pouquíssimas pessoas que compartilham todas suas ótimas colocações, dentro de casa, longe da areia e de grandes multidões, sem dúvidas é o luxo contemporâneo.
    Bom apetite.
    Bom descanso.
    E um 2026 abençoado.
    Alex Meira.

  5. Cadu meu amigo !!! Compartilho sua idéia … Família reunida em casa , ar condicionado no talo ( Santos tá um calor
    Infernal ), uma bela ceia e muito bem acomodado.

    Menegazzo

  6. Jóia, uma observação aguda da comemoração de uma data nada festiva, principalmente aqui nos nossos trópicos, sob uma ditadura canalha de analfabetos travestidos de autoridade.
    Comemorar o quê?
    Flávio

  7. E então vêm as vestimentas. Um espetáculo à parte. Camisetas regata em tons indefinidos, sandálias Havaianas em baixa, Ipanema e USAbrasileiras em franca alta. Ae sim! Rsrsrsrs

  8. Pois e, Cadu.Ja imaginou onde estou neste momento, numa cidade 500 habitantes por metro quadrado, ruas fechadas e eu lendo suas gentis observacoes! e preciso coragem,irmao’!
    Ate ano que vem!

  9. Maravilhoso este ensaio sobre o Reveillon ! Amo ler os seus textos! São muito ricos no imaginário, e na realidade, pois em minha mente há o desfile de tudo, a medida em que leio ! Morro de rir 😂 ! Obrigada Cadu por mais esta pérola!
    Sônia Saadi

  10. Ótima crônica Cadu ! . Estou com você . Mas , eu aqui perto do Palácio estarei passando horas tenebrosas . Que a Nossa Senhora da paciência me proteja . Que São Francisco proteja os meus quatro patas . Abraços e Feliz Ano Novo ! . Nina .

  11. Rapaz… Nesse breve descritivo já me caguei de rir! Vou esperar uma folga para me deliciar com esta croniqueta… ou texticulo? — Assim Cariê Lindberg se referia aos textos saborosos que publicava aos sábados no caderno cultural de A Gazeta, depois de se retirar da administração formal do jornal
    Dan

    1. Maravilhosa crônica!

      Me encontrei em quase todos os parágrafos… A última vez que fui a um clube, foi na virada do millennium… 1/4 de século atrás… tenho passado as últimas viradas de ano com amigos de infância, grupos de duas dúzias de pessoas no máximo, por quem tenho apego praticamente familiar mesmo. Natais, apenas meus pais, filhas, irmãos e sobrinhos, e a Ana é claro! Ah, sim, Menga, nossa cadela, presente nos últimos 10 natais!

      Grande abraço! Não ligue o telefone, não ceda!
      Dan

  12. Estou c vc !!!! Bando de gente CAFONA. TBM TENHO PAVOR!

    MAS CONFESSO Q GOSTO DO SALPICÃO!!! FELIZ 2026! SEM…..ABRAÇOS MELADOS E PEGAJOSOS! RITA

  13. Rapaz, estou rindo até agora! Um presente de fim de ano! Chorando de rir. A tradução em letras destas loucuras de final de ano!
    Um feliz ano novo !!!
    Osiris Martuscelli

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