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Ultimamente, confesso, meu lado crítico anda perigosamente bem alimentado. Resorts, Cruzeiros, Réveillons — nenhum escapou ileso da observação atenta deste iPad que, ao que tudo indica, virou uma espécie de tribunal portátil do cotidiano.
Como todos esses destinos têm algo em comum — aeroportos — seria injusto poupá-los. E assim, com a serenidade de quem só reclama porque já viveu melhor, segue mais uma crônica sobre esse curioso espaço onde a civilidade entrou em conexão e nunca mais desembarcou.
Houve um tempo em que ir ao aeroporto era quase um ritual social. Um evento. Homem não embarcava sem terno e gravata; mulher, sem elegância à altura. Aeroporto era território de adultos bem-comportados, relógios sincronizados e passos contidos. Hoje, é uma mistura pouco inspiradora de rodoviária de beira de estrada com recreio de escola pública em dia de chuva.
Lembro do Tio José — sempre há um Tio José nessas histórias. Elegante por natureza e por educação, fazia do Santos Dumont sua sala de leitura. Após a ginástica matinal, jornal debaixo do braço, café na mesa de sempre, pousos e decolagens como trilha sonora. Voltava para casa em paz, certo de que o mundo ainda obedecia a alguma lógica. O mundo mudou. O aeroporto também.
Nada contra a informalidade. Nada contra sandálias, bermudas ou moletons. Cada época tem seu figurino. O problema não é a roupa, é a ausência completa de noção. Hoje, atravessar um aeroporto brasileiro exige preparo psicológico equivalente a um Fla-Flu em final de campeonato. Gente gritando, celular no viva-voz, crianças em disparada olímpica entre malas e pernas alheias. O saguão virou pista de atletismo infantil.
As esteiras rolantes — aquelas criadas para facilitar a vida — transformaram-se em lounges improvisados. Casais parados, famílias inteiras ocupando toda a largura, conversas longas e animadas como se estivessem num bar da Lapa. À direita, ninguém anda. À esquerda, ninguém passa. A esteira não rola, apenas sofre.
Cenas pitorescas se sucedem com naturalidade assustadora. Passageiro cortando unha do pé enquanto espera o voo. Outro, na sala VIP, indignado porque ninguém o acordou para o embarque — como se o lounge tivesse obrigação maternal. Há também o ritual das filas: filas para o raio-x, filas para embarcar, filas para ir ao banheiro. No feminino, então, o xixi virou prova de resistência. No masculino, segue tudo rápido, prático e injustamente eficiente.
As filas preferenciais cresceram de tal forma que levantam duas hipóteses: ou o Brasil envelheceu de repente, ou todo mundo decidiu que merece prioridade. Ou os aeroportos se adaptam, ou em breve viajar após os 60 será classificado como atividade radical.
A restituição de bagagem, por sua vez, é uma aventura. Malas surgem quando querem, se querem. O passageiro, resignado, aguarda como domador sem chicote, torcendo para que a sua apareça inteira.
E então chegamos às aduanas. Ah, as aduanas! Tão demoradas, tão inexplicavelmente lentas, que permitem ao passageiro ler a Bíblia inteira — Antigo e Novo Testamento — com direito a releituras, reflexões teológicas e talvez até conversão religiosa antes de liberar a mala.
Viajar continua sendo uma das grandes conquistas da humanidade. Transportar-se é o problema. Aeroportos, rodoviárias e estradas brasileiras pedem mudanças estruturais urgentes. Mas nenhuma obra resolverá o essencial: educação, civilidade e respeito ao coletivo. Até lá, seguimos embarcando — não só em voos mas em experiências cada vez mais surrealistas.
Adoro seu textos. Me representam ☺️
Johnny
Adoro seu textos. Me representam ☺️
Chegando agora em SP do Reveillon em Paris, concordo em tudo com sua crônica 👏🏼👏🏼👏🏼
Lincoln Graça Neto
Boa Noite.
É !!!!!
Vamos continuar vivendo experiências surrealistas.
Por um bom tempo !!!
Sou como Ariano Suassuna.
Até 500Km vou via terrestre.
Abração e boa semana.👏👏👏
Alex Wagner
Mais uma luz neste bacanal do esbanjamento que vivemos nos últimos tempos 😜
Pois e , Cadu Alem de todas essas perolas aeroportuarias,ressalto a pior de todas: o passageiro sentado atras de mim.Ao levantar, o insano agarra no meu assento com tanta forca estranha e balanca tanto, que ,se eu estivesse sem cinto, seria projetado para a frente com risco iminente de Trauma cranio encefalico. E adeus cochilo
Coragem, irmao!Abc
Julio Pinheiro!
Lendo sua crônica no saguão do aeroporto esperando o vôo q além de atrasado está sem previsão para sair…
A leitura caiu como uma luva…
Silvana Leão
Excelente, Cadu! E pensar que visitar o aeroporto já foi um passeio no fim de semana! Hoje esse caos que você descreveu tão bem!
Cido Carvalho
Cadu , tudo isso realmente ! O problema é ate onde isso tudo ainda poderá chegar ! Quase fui preso na Alemanha por conta de sabonete , virou quase caso de polícia ! Explosivo ? Droga ? A suspeita , nunca irei saber …..
Bom demais. Você é ótimo. Concordo com tudo.
Cláudio Cadeco
Sem conter com os imprevistos do voo. Tenho preferido os riscos das estradas . Onde nao se depende do avião.
Tem dado certo.
Adissi
👏👏👏👏👏👏🙏🙏🙏🙏🙏🙏😍 VERDADE PURA E REGISTRO ESCRITO DO INFERNO QUE VIROU O AEROPORTO , TENDO DE QUEBRA A VIAGEM QUE É UMA MARATONA!!!!!PARABENS CADU!!!!😂😂😂😂😂😂
Sônia Saadi
Você é bom demais. Concordando 100%
Excelente, arguta observação sobre os novos tempos, que vieram para ser o novo normal. A educação foi relegada à doutrinação política e assim a falta de educação cívica passou a dominar todos os espaços públicos. Irreversível!
Flávio
Estou indo para SP de carro apenas para não enfrentar isso.
Flávia Albuquerque
Estive recentemente no aeroporto! Exatamente assim, como descreveu! Lembrei-me também de muitos anos atrás: a elegância…agora perdida. Faltou falar dos shorts, as “havaianas”, as descomposturas… Grande abraço amigo querido. E Feliz Ano Novo! Ian Duarte
Crônica excelente que retrata a realidade de forma pitoresca
E a tendência, caro Carlos, é só piorar.
Fellet
Cadu meu amigo !! Excelente crônica , exatamente isso que vivemos nos aeroportos. 👏👏
Menegazzo
Parabéns CADU pela crônica bem verdadeira.!!!
Lula
Adorei seu humor refinado
Beth Dias
Vc somente esqueceu dos travesseiros… para mim o mais surreal.
Beth
Parabéns Cadu. Você descreveu com precisão e humor a aventura de enfrentar um aeroporto.
Excelente!
Ze Octavio
Segundo nosso amigo Afonso: “lugar de pagar penitência…”😂😂😂
Leonardo Alves
Falta ao povo Brasileiro o que deveria ser dado de exemplo pelo governo e em seus lares de criação:
Educação, respeito ao próximo e Cidadania.
Hoje nos assustamos quando vemos uma família bem educada (excessão rara) e ao vermos o muito bem relatado acima apenas observamos que estamos no Brasil ou em País de quarto mundo.
Parabéns pelo texto, Cadu.
Feliz Ano Novo, Alex Meira.
Excelente descrição do que se enfrenta hoje numa viagem aérea, principalmente em alta temporada (que cada vez se torna mais longa). Usar o Ipad como confessionário ou sessão de terapia me parece um ato de profunda racionalidade, aproveitando a raiva e a frustração como combustíveis para o pensar. De fato, tem sido desafiador, para dizer o mínimo. Nosso sistema de recompensa tem que ajudar muito, nos lembrando todo tempo de como será bom quando (e se) chegarmos ao destino. E assim seguimos, entendendo que deslocamento até lá impõe percalços. Parabéns!
Cadu , crítica plausível ,pertinente ! Aeroporto no Brasil ,hoje : “ . Hoje, é uma mistura pouco inspiradora de rodoviária de beira de estrada com recreio de escola pública em dia de chuva.”Educação ,zero !!!!!😂
Bom dia ! Com a vivência de quem “morou” no avião por quase 4 anos , só posso ratificar a sua Otima crônica !
E olha que Vc poupou os que embarcam em avião e/ou e que ocupam o assento errado !
Sigamos juntos !
Abraços Fraternos
Lincoln
Kadu
Aeroporto hj
Muda -se o nome
O resto está sendo nivelado por baixo
Apesar da modernidade e tamanho
Em quase todo mundo
Renato Lage
Perfeito 👏👏👏👏👏👏👏👏
“é uma mistura pouco inspiradora de rodoviária de beira de estrada com recreio de escola pública em dia de chuva.”
Melhor definição que já ouvi. A falta de noção e civilidade está gritando.
Está realmente difícil viajar! Chato mesmo!
Mas a sua crônica está hilária! Tive um tio querido que era frequentador de aeroporto como o seu! Meu pai dizia que ele era o presidente da AFA(Associação dos Frequentadores de Aeroportos).
Atágide Assunção