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O brasileiro tem um talento raro: transformar exclusividade em epidemia.
A Porsche, por exemplo, já foi um objeto de desejo. Hoje virou quase um item da cesta básica aspiracional. Em certos bairros do Brasil, aparece mais Porsche do que padaria. Ficou igual bunda: todo mundo tem.
E nada contra quem compra. O problema nunca foi o dinheiro novo. Dinheiro é ótimo, sobretudo quando aparece. A tragédia começa quando desaparece o conceito.
Porque Porsche nunca foi apenas um carro. Porsche é liturgia. É tradição. É engenharia tratada como arte. Um automóvel que carrega décadas de automobilismo, elegância discreta e uma certa aristocracia silenciosa — aquela que não precisa acelerar no semáforo para provar existência.
Mas o Brasil possui uma vocação quase afetiva pela descaracterização. Tudo aqui precisa virar caricatura de si mesmo.
Assim, a lendária marca alemã passou a frequentar um estranho carnaval social: celebridades instantâneas, influencers de aluguel emocional, jogadores recém-endinheirados, empreendedores de curso online e cidadãos cujo maior contato com Stuttgart talvez tenha sido uma legenda no Instagram.
Até aí, paciência. Porque o automóvel, sobretudo no Brasil, raramente é apenas um carro. Quase sempre é ascensão social com bancos de couro.”
O problema é quando a banalização ultrapassa a fronteira do ridículo.
Recentemente, uma autoescola do Paraná decidiu utilizar uma 911 Carrera — talvez o maior símbolo da Porsche — como carro de aprendizagem.
Claro que conseguiu o que queria: atenção. Viralizou. Comentários, manchetes, selfies e espanto coletivo. No Brasil contemporâneo, aliás, quase tudo parece autorizado em nome do engajamento.
A pergunta é outra: precisava desrespeitar uma história para isso?
Uma 911 para alunos iniciantes é como usar um Stradivarius para aprender “Parabéns pra Você”.
Em nenhum lugar civilizado do mundo alguém submeteria um ícone dessa magnitude a tamanho rebaixamento simbólico. E o mais curioso é a passividade constrangedora das revendas autorizadas e da própria operação nacional da marca, que assistem à erosão do mito com a serenidade burocrática de quem observa infiltração no teto do Louvre.
Enquanto isso, a Ferrari protege ferozmente sua identidade. Entende que marcas lendárias não sobrevivem apenas de vendas. Sobrevivem de critérios.
No Brasil, porém, existe uma dificuldade histórica em compreender valor cultural. Aqui, tradição costuma ser confundida com frescura. Exclusividade com arrogância. E vulgarização com democratização.
O resultado é esse: a lenta transformação de um mito automobilístico em fantasia de ostentação tropical.